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3 de fevereiro de 2014

A Síndrome de Savant


           A Síndrome de Savant, também denominada Savantismo, é uma síndrome muitas vezes associada ao autismo, pois aparece em 10% dos autistas. Ela também pode ocorrer quando há lesões ou malformações cerebrais, mas isto só ocorre em 2% dos casos. Essa Síndrome foi primeiramente descrita pelo médico Langdon Down, que estudou casos de dez pessoas que na época chamou de idiots savants (ou sábios idiotas), pois o que eles tinham em comum era uma inteligência de forma geral comprometida e, no entanto, habilidades específicas extremamente desenvolvidas (MESQUITA, 2007).
            As causas da Síndrome não são muito esclarecidas, mas cientistas vêm observando que há uma grande relação com deficiências no hemisfério esquerdo do cérebro, o que forçaria o hemisfério direito a tentar compensar essas falhas. Essa teoria poderia explicar o fato de essa Síndrome acometer quatro vezes mais homens do que mulheres: “durante o desenvolvimento do cérebro, o hemisfério esquerdo desenvolve-se mais lentamente, correspondendo ao período no qual é mais vulnerável, e o organismo do homem possui maior nível de testosterona, que pode ser tóxica ao desenvolvimento de tecido cerebral" (FREITAS, OLIVEIRA E SOUZA).
     Essa teoria pode ser observada com base em estudos de caso de pessoas portadoras dessa síndrome, pois algumas das habilidades mais desenvolvidas por elas são ligadas ao hemisfério direito do cérebro, dentre elas, segundo Mota (2007):

·      Habilidades Musicais (Inteligência Musical);
·      Habilidades Artísticas (Pintura, Escultura, etc.);
·      Matemática (cálculos matemáticos);
·      Metodologia de Cálculos Elaborados;
·      Memória Intensificada.

Já as funções ligadas ao lado esquerdo do cérebro são pouco desenvolvidas, como a linguagem, a fala e as relações sociais, o que ocasiona um baixo entendimento do ambiente ao redor dessas pessoas. Os indivíduos com essa Síndrome enfrentam os mesmos problemas que os outros autistas quanto às interações pessoais e muitas vezes, devido às particularidades trazidas por esta condição, essas pessoas conseguem decorar livros inteiros ou fazer cálculos matemáticos complicadíssimos sem, no entanto, saber o que significam ou como usá-los na prática do dia-a-dia.
Um dos casos mais famosos ainda hoje estudados é o do paciente chamado Kim Peek, um autista com a Síndrome de Savant que aprendeu a ler aos dois anos, sabia de cor 7.500 livros, com uma memória enciclopédia, e, no entanto, com uma séria deficiência cognitiva, pois apresentava um Q.I. de 73 e era dependente do pai aos 55 anos para fazer coisas simples, como tomar banho e se barbear.

Fonte da foto: http://en.wikipedia.org/wiki/Kim_Peek
O filme Rain Man, inspirado neste caso real, também mostra diversas habilidades que podem ser observadas no personagem vivido por Dustin Hoffman, que interpreta Raymond Babbitt, um autista com a Síndrome de Savant. Na história do filme, Charlie (interpretado por Tom Cruise), descobre que seu rico pai ao falecer deixou toda sua herança para o seu irmão autista, Raymond (Dustin Hoffman), o que o leva a sequestra-lo da instituição em que estava internado para tentar reaver o dinheiro.

Fonte da foto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rain_Man

Raymond possui incríveis capacidades matemáticas, chegando a contar os palitos de dente que caíram no chão com apenas uma olhada e a contar cartas em Las Vegas, levando ele e seu irmão a ganharem muito dinheiro. Ele também tem uma memória acima da média, pois em determinada cena chega a decorar todos os nomes e telefones da lista telefônica, decorar livros inteiros e lembrar-se de datas com precisão.
De acordo com Izquierdo (2002), “As memórias que registram fatos, eventos ou conhecimento são chamadas declarativas” (p.22). Este é o tipo de memória que encontra-se extremamente bem desenvolvida nos casos de pessoas com a Síndrome. As habilidades de associar dados, deduzir e criar ideias possibilitam que essas pessoas evoquem informações de maneira mais sofisticada se comparados às pessoas que não possuem a Síndrome.

O primeiro vídeo a seguir mostra a incrível memória de Raymond, que se lembra do telefone da garçonete que o atende, pois decorou os números na lista telefônica (o vídeo encontra-se em inglês): 


Este segundo vídeo refere-se a uma cena que mostra sua habilidade matemática, quando Raymond conta cartas em Las Vegas (vídeo também em inglês):




Vale lembrar que nem todas as pessoas que têm a Síndrome de Savant possuem habilidades tão desenvolvidas quanto o personagem Raymond ou o paciente Kim Peek, pois os níveis dessas habilidades variam de acordo com casos, sendo classificados da seguinte forma, de acordo com Castilho e Ribeiro (2011):

Savants podem ser categorizados de acordo com o nível de habilidade: Prodigiosos, talentosos, e com fragmentos de habilidades. Aqueles ditos prodigiosos, apresentam sua habilidade de forma extraordinária, muito além do nível da população normal, contrastando com sua deficiência. Já o Savant talentoso tem habilidades acima da média, mas não é um prodígio, pois são habilidades que ocorrem de certa forma também em pessoas não autistas ou não deficientes. Por fim o Savant com fragmentos de habilidades (splinter skills), tem interesse e competência acima da média do seu nível de funcionamento, estes são mais comuns dentre os autistas (p.06).

É importante que se pense também na educação efetiva das pessoas que possuem a Síndrome de Savant, para que suas habilidades possam ser desenvolvidas e trabalhadas, mas principalmente, que as suas potencialidades gerais possam ser estimuladas, possibilitando a elas certo grau de independência e boas interações sociais. Obviamente, que isto possa ser construído na medida do possível, considerando as limitações e dificuldades encontradas por cada um.

Título Original do filme citado: Rain Man
Direção: Barry Levinson
Ano: 1988
Duração: 133 minutos
Origem: Estados Unidos


Referências:
CASTILHO, A. C; RIBEIRO, M. J. L. Síndrome de Savant: Possibilidades educacionais. 2011 Disponível em: <http://www.abrapee.psc.br/xconpe/trabalhos/1/223.pdf> Acessado em: Janeiro de 2014.

FREITAS, P.; OLIVEIRA, B.; SOUZA, J. Características e Causas da Síndrome de Savant: Inteligência e Memória na Síndrome de Savant. Disponível em: <http://www.psicologiananet.com.br/caracteristicas-e-causas-da-sindrome-de-savant-%E2%80%93-inteligencia-e-memoria-na-sindrome-de-savant/1299/> Acessado em: Janeiro 2014.

IZQUIERDO, I. Memória. Porto Alegre: Artmed, 2002.

MESQUITA, E. M. Idiots Savants: Um paradoxo real ou ilusório? Disponível em: < http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0386.pdf > Acessado em: Janeiro de 2014.


MOTA, M. Psicologia e a Síndrome de Savant. 2007 Disponível em: < http://www.guiadacarreira.com.br/artigos/ciencia/psicologia-sindrome-de-savant/> Acessado em: Janeiro de 2014.

25 de janeiro de 2014

Um debate sobre Linda – Personagem da novela Amor à Vida

A novela Amor à Vida está se aproximando do fim, mas ainda tem gerado muita polêmica nas redes sociais, salas de aula e nas casas dos telespectadores. A dramaturgia escrita por Walcyr Carrasco está no ar desde o dia 20 de maio de 2013 e terá seu último capítulo exibido no dia 31 deste mês. Mesmo diante de vários temas polêmicos abordados por ela (gordofobia, homofobia, violência contra a mulher, AIDS e etc.), um em especial nos chamou atenção: Linda, uma adolescente portadora de autismo que, depois de conhecer o advogado Rafael, mudou radicalmente, chegando a desenvolver comportamentos até então nunca observados na personagem.
Antes de nos aprofundarmos na discussão, é importante expor alguns acontecimentos que ocorreram antes da Linda se “relacionar” com Rafael. Depois de pesquisar os primeiros capítulos da novela no site da emissora Globo, observamos que:

1. No primeiro episódio em que Linda aparece, ela apresenta características que englobam os três conjuntos de sintomas dos Transtornos do Espectro Autista (TEA) de acordo com o DSM IV. Na cena, ela está se balançando e movimentando o controle da televisão repetitivamente; não fixa o olhar na direção das outras pessoas; não gosta de atos que envolvam toques e possui uma comunicação verbal limitada a ecolalias.

Fonte: http://gshow.globo.com/novelas/amor-a-vida/capitulo/2013/5/27/

2. No decorrer dos capítulos aparecem cenas 
que mostram a hipersensibilidade da personagem  diante da diversidade de estímulos presentes no ambiente. Esse fato lembra o vídeo de Carly.

3. Outro capítulo mostra Linda urinando na cama da irmã.

Esses e outros fatos nos levam a acreditar que o autismo da Linda é severo, mas se assim o é, é possível uma mudança tão rápida devido ao aparecimento de uma pessoa na vida da personagem? Diante de tantos questionamentos nós procuramos na internet, blogs e reportagens sobre o assunto e achamos várias opiniões distintas de mães e pais de pessoas que possuem autismo, psicólogos de diversas abordagens e dos telespectadores da novela.  Mesmo com um elevado número de opiniões, percebemos algumas que estavam sempre presentes:

·         “Linda não tem autismo”;
·         “Há uma mistura de diferentes graus do autismo na mesma pessoa”;
·         “Linda é capaz de amar como qualquer outra pessoa”;
·     “Ao mesmo tempo em que a novela representa uma visão distorcida do TEA, abre espaço para o debate sobre o tema”.

Acredito que o que está em jogo nesta discussão não é o fato de uma pessoa portadora de autismo poder ou não namorar, pois dependendo do grau isto é possível sim, como é possível também trabalhar, cozinhar e realizar diversas outras atividades presentes no cotidiano - como pode ser visto na série de reportagens feita pelo programa Fantástico sobre o autismo. Mas o caso da Linda é diferente, desde o começo da novela fica claro que o autismo dela é severo, fica claro a falta de estimulação por parte da família, e o comportamento rígido dela só evidencia mais a quebra do seu desenvolvimento.


No decorrer das postagens deste blog mostramos a importância de certos cuidados e preparos que é preciso ter quando se tem uma pessoa autista em casa. O ambiente precisa ser preparado, a família precisa entender sobre o transtorno, a pessoa com autismo tem que ter um acompanhamento constante com uma equipe multidisciplinar. Linda não teve nada disso, a irmã dela no começo da novela a chamava de ‘bicho’, o apoio psicológico só foi procurado depois de algumas semanas da novela, durante a trama não houve nenhuma menção à terapia na infância ou no começo da adolescência, e não foi abordado na novela com quantos anos o diagnóstico da Linda foi dado. Bandim (2011) diz que:

Quanto mais precoce for o diagnóstico, mas chance tem a criança de responder aos diversos tipos de intervenções, já que quanto mais nova a criança, maior o que chamamos de plasticidade cerebral ou neuroplasticidade, definida como habilidade no curso da vida, do cérebro em reorganizar vias nervosas baseadas em novas experiências, modificando sua organização estrutural própria e seu funcionamento (ou seja, melhor possibilidade de resposta aos estímulos oriundos do tratamento e do ambiente); quanto mais tempo perdemos em proceder o diagnóstico e consequentemente, o tratamento, mas a criança vai consolidando formas de comportamentos rígidas e mais resistentes às intervenções (p.47).

Ou seja, é visivelmente errônea a maneira com que a novela retrata o transtorno, chegado até a dar uma ideia de cura. Quando começa a interagir com Rafael, Linda passa a formular frases quase instantaneamente, aprende a cozinhar, a sentir saudades, a querer abraçar e etc. Como já foi abordado, isso são ganhos que ocorrem com anos de acompanhamento com fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, psiquiatras e outras especialidades; principalmente nos casos severos do transtorno, em que muitas vezes o portador possui a linguagem verbal bastante comprometida.
A novela também passa a ideia errada sobre a hipersensibilidade dos autistas. Uma cena mostra Rafael ensinando Linda a cozinhar, quando ele liga o liquidificador ela começa a gritar tampando os ouvidos e ele responde: Não precisa ter medo, Linda. É só um liquidificador. É um aparelho. Não vai te pegar". Instantaneamente Linda se mostra bastante tolerante ao barulho do liquidificador e termina de fazer o macarrão com Rafael. É importante deixar claro que não é medo, mas sim hipersensibilidade aos estímulos externos que os autistas possuem, ou seja, a luz é mais intensa, o som é mais alto, o toque é mais forte. No próprio site da emissora Globo a notícia aborda o sintoma associado ao medo:

Fonte: http://gshow.globo.com/novelas/amor-a-vida/Vem-por-ai/noticia/2013/12/milagre-linda-cozinha-com-rafael-e-ate-ganha-elogio-de-leila-esta-bom-mesmo.html

Em uma entrevista para o blog Feminismo sem Demagogia, Raquel Ribeiro Bittencourt, mãe de um autista de 28 anos, diz:

A atriz que vive a Linda na novela, Bruna Linsmayer, fez a composição do personagem na nossa associação (Associação caminhos para Vida-ACV- em Florianópolis). O autor construiu um personagem absolutamente fictício. Autistas não são assim, embora exista uma modulação da manifestação do autismo de uma pessoa para outra que compromete mais ou menos a sua capacidade de interagir. Os autistas tem muita dificuldade de estabelecer uma conversação fluente, lógica, coerente com o contexto em que ocorre. Na maioria das vezes, a fala é desconectada, pois a sua percepção da realidade é muito diferente. Vejo que o rapaz que se apaixona por ela, está encantado com a sua beleza apenas. Autista como retratado na novela, só em novela.

Entrevista completa:


Na última semana, Linda e Rafael se beijaram e a sua mãe, que sempre foi superprotetora, o denunciou por abuso de incapaz. Desde a prisão do rapaz, Linda regrediu, voltando a ser como no começo da novela, ou seja, voltou a ter as características do autismo severo (de uma hora para a outra). Com medo de que sua filha volte a “estar presa dentro de si” Neide, mãe de Linda, pede desculpas a Rafael e pede para que ele volte a ver Linda, ele volta e advinha? Linda, na mesma hora, fala, toca, chora, diz que ele é importante e termina a cena fazendo um discurso que dizia mais ou menos assim:

“Socorro! A vida toda presa dentro do meu corpo, barulho dói, as luzes doem, eu o tempo toda presa dentro de mim. Tem uma parede de vidro entre eu e vocês, eu ouvia vocês, mas as vozes não entravam dentro de mim, o sentido das coisas não entravam, eu presa dentro de mim! Mas ai chegou o Rafael e o Rafael quebrou a parede; o Rafael deu tempo para a Linda, deu tempo para a Linda existir, estendeu a mão lá no fundo e me trouxe para cá, me trouxe para fora. As vezes e não controlo meu corpo, as palavras, as vozes, não consigo controlar. Eu não sou a pessoa mais fácil do mundo, mãe, pai a Linda sabe que não é fácil. Mãe eu só existo com cuidado, não deixa o Rafael ir embora, eu não quero ficar presa dentro de mim!”



Pois é, a Linda passou de um grau severo do espectro autista para uma quase cura. No discurso, a personagem mostra um grande entendimento sobre seu problema, usa várias metáforas, algo raro até no Asperger (grau leve do espectro), sabe falar claramente sobre os seus sentimentos e mantém um diálogo coerente o tempo todo. Esses fatos não condizem com a realidade!
Mesmo sabendo que a novela é ficção, ela diz relatar a vida real e é usada como dispositivo de informações para muitas pessoas. Logo, torna-se um instrumento perigoso para quem não conhece o autismo, ao propagar ideias distorcidas, encobrindo a gravidade do que realmente é o transtorno. É preciso  deixar claro que o autismo é um transtorno complexo que precisa ser analisado com mais cuidado, e que a evolução de cada caso, deverá ser compreendida e trabalhada ao longo do tempo da história individual de cada sujeito que o possui. 


Referências:
BANDIM, J. M. Autismo: Uma abordagem prática. Recife: Bagaço, 2011.

GADIA, C. A.; TUCHMAN, R.; ROTTA, N. T. Autismo e doenças invasivas de desenvolvimento. Jornal de Pediatria, v.80, n.2, p.83-94, 2004. 

Outras reportagens:


21 de janeiro de 2014

Autismo e Periodização do Desenvolvimento


O processo de desenvolvimento é comumente visto como uma sucessão de etapas, na maior parte das vezes delimitadas por idades cronológicas determinadas. Mas como é possível fixar uma cronologia se a cultura, a época e a história de vida de cada um interferem nas experiências e influenciam o desenvolvimento? Como é possível ainda empregar a mesma cronologia para indivíduos com transtornos que interferem no desenvolvimento, como o autismo?
O livro “Um Mundo à Parte” de Jodi Picoult apresenta a história de Jacob Hunt, um adolescente de 18 anos diagnosticado com síndrome de Asperger que apresenta dificuldades para interpretar pistas sociais, se expressar diante dos outros e tem fixação por um único tema: análise forense. Quando a orientadora dele, Jess, é assassinada, Jacob se torna o principal suspeito e não há dúvidas de seu envolvimento pelo menos no encobrimento do crime.  Apesar de se tratar de uma ficção e de nem todas as informações presentes na obra sejam precisas, o livro põe em discussão o fato de que mesmo tendo idade suficiente para responder pelos seus atos, Jacob não apresenta algumas características, como o entendimento abstrato das leis e da moral implícita, que normalmente estão presentes na etapa de desenvolvimento em que ele se encontra.

Um mundo à parte capa Jodi
Fonte: http://o-livreiro.com/confira-a-capa-de-um-mundo-a-parte-novo-livro-de-jodi-picoult/

O problema de considerar o desenvolvimento como uma sucessão de etapas universais reside na ideia de que essa perspectiva não leva em consideração as particularidades de cada indivíduo. “Sem levar em conta aspectos da história cultural e individual dos sujeitos, essa perspectiva não contempla a multiplicidade de possibilidades de desenvolvimento humano, nem tampouco a própria essência do desenvolvimento, que é a transformação” (OLIVEIRA & TEIXEIRA, 2002, p.26).
No caso apresentado no livro, o problema está no fato de que, legalmente, Jacob já pode ser considerado adulto, no entanto, ele não se comporta ou se vê como tal. “A idade, embora seja uma variável útil e necessária para definir responsabilidades jurídicas e para a programação e implementação de políticas públicas, não é (e não pode ser) tomada de forma universal, descontextualizada e a-histórica” (MEDRADO, 2011, p.25).
O problema de se considerarem etapas fixas e estabelecer comportamentos padrões para essas etapas pode ser visto também no filme “Adam”, já comentado aqui no blog, que apresenta a estória de um homem com síndrome de Asperger. No filme, Adam, apesar de ser um adulto, não é capaz de lidar com situações consideradas “normais” para a etapa de desenvolvimento em que se encontra, como morar sozinho e arrumar um emprego.
Se torna necessária uma maior atenção para o contexto e as características e peculiaridades individuais ao se considerar as diferentes etapas do desenvolvimento, especialmente na fixação de idades específicas para delimitar tais etapas. No caso das pessoas com autismo, tais observações se tornam especialmente importantes, visto que o transtorno afeta diferentes aspectos do desenvolvimento e não se apresenta de forma única em todos os indivíduos afetados.
Mas atenção! Considerar tais peculiaridades não significa subestimar as capacidades de indivíduos com autismo! Pessoas com esse transtorno têm grandes possibilidades de desenvolverem diversas habilidades desde que sejam estimuladas para tal. Um bom exemplo disso é Carly Fleischmann, uma menina com autismo não-verbal que, embora tenha sida considerada pelos médicos como uma criança que jamais ultrapassaria as habilidades de uma criança pequena, surpreendeu a todos quando utilizou um computador para avisar aos pais que estava com dor e em seguida escreveu um livro junto ao pai para contar sua história.
Em resumo, é necessário considerar as peculiaridades de cada indivíduo (não só aqueles que possuem autismo), considerando o contexto e as características individuais que afetam seu desenvolvimento e não considerar apenas as etapas fixadas como padrão. Não esquecendo, contudo, que todos os indivíduos, mesmo aqueles que apresentam transtornos sérios do desenvolvimento, podem se desenvolver de forma satisfatória desde que recebam os estímulos necessários.

      

Referências:
MEDRADO, B. Adolescência, juventude, pré-adolescência, adultescência... Entre modelos culturais ideais e a ruptura com os padrões etários que (de)limitam lugares. In: LYRA, J.; SOBRINHO, A.; RIBEIRO, C.; CAMPOS, T.; LUZ, L.; MEDRADO, B. (Orgs.).  Adolescência em movimento: traços, tramas e riscos. Recife: Instituto PAPAI/MAB/Canto Jovem, 2011, p. 23–40.

OLIVEIRA, M. K.; TEIXEIRA, E. A questão da periodização do desenvolvimento psicológico. In: OLIVEIRA, M. K.; SOUZA, D. T. R.; REGO, T. C. (Org). Psicologia, Educação e as temáticas da vida contemporânea. 1 ed., São Paulo: Editora Moderna, 2002, p. 23-46.

13 de dezembro de 2013

“Temple Grandin” – O autismo através do tempo

O filme que será usado hoje para trazermos mais informações sobre o autismo foi lançado em 2010 e conta a história verídica de Temple Grandin. Diagnosticada com autismo aos 4 anos em 1951, época em que ainda não existiam estudos aprofundados sobre o transtorno, Temple foi dada quase como um "caso perdido" pelo médico procurado pela sua mãe. Indagado acerca dos possíveis tratamentos, o médico informa que Temple provavelmente nunca irá falar e que, na ausência de tratamentos existentes, o melhor a se fazer é optar pela internação.


O nome autismo foi mencionado pela primeira vez em 1911 por Bleuler para se referir a crianças com comportamentos que apresentavam rupturas com a realidade, os quais dificultavam ou impossibilitavam a comunicação. Já em 1943, Kanner usa a mesma definição com o nome de “Distúrbios Autísticos de Contato Afetivo” para descrever 11 crianças que tinham em comum a inabilidade em estabelecer contato afetivo e interpessoal. Um ano depois, Asperger, seguindo a mesma linha de pensamento de Kanner, passa a chamar essas características de ‘Psicopatia Autista’. O autismo continuou sendo visto como uma psicose precoce, aproximadamente, até a década de 70 (GADIA, TUCHMAN & ROTTA, 2004).
Nos anos 50 e 60 a sociedade compartilhava a ideia de que o autismo era causado por mães que não davam atenção e afeto necessários para o desenvolvimento normal da criança, essas mães eram conhecidas como “mães geladeiras” (BANDIM, 2010). No filme isso é bem claro, pois o diagnóstico de Temple foi dado exatamente no período em que essa teoria era usada pelos médicos e compartilhada pela sociedade em geral. Depois de fazer algumas perguntas sobre o brincar e sobre a linguagem de Temple, que aos quatro anos ainda não havia falado, o médico dá o diagnóstico, e diz que Temple tem “esquizofrenia infantil”, deixando claro o caráter psicótico do autismo na época. Além disso, o médico afirma que não há tratamento, que ela provavelmente nunca irá falar e que a melhor coisa a fazer é optar pela internação.


Há na psicologia a Teoria do Apego que aborda bem o papel da mãe/cuidador no processo de desenvolvimento da criança. Desde o nascimento, o bebê necessita de cuidados para a sua sobrevivência. Assim, aos olhos do cuidador, a criança tem a possibilidade de conhecer a realidade externa, explorar o ambiente e, ao perceber algo perigoso e/ou assustador, passa a buscar proximidade com o cuidador que a protege, dando-lhe a sensação de segurança e proteção. Esse cuidador em geral, mas não necessariamente, é a mãe. Barstad (2013) afirma que “se as relações de apego funcionam de forma ideal, o indivíduo aprende que a distância e a autonomia estão relacionadas com proximidade e confiança em outros (p. 16)”.
Mesmo diante da importância da relação mãe-bebê a teoria da “mãe geladeira” foi completamente abandonada e na década de 70, o pesquisador Ritvo abole o caráter psicótico do autismo, passando a considerá-lo um transtorno ligado ao desenvolvimento. A partir daí várias mudanças ocorreram no campo dos estudos sobre o autismo: a maioria dos centros terapêuticos abandonaram as terapias de orientação psicanalítica passando a adotar as perspectivas pedagógicas e comportamentais; os Manuais de Diagnóstico e Estatística (DSM) passam a se aprofundar no estudo definindo sintomas, formas de diagnóstico, características do portador do autismo; etc. Mais detalhes sobre essas características podem ser encontrados nas publicações que compõem esse blog.
            Outro aspecto importante do filme é referente à linguagem de Temple, que, assim como o personagem do filme “Adam” , possui uma compreensão concreta da linguagem, ou seja, ela tem dificuldades para entender ironias, metáforas e piadas. E isso se estende ao entendimento das expressões faciais das pessoas. Em uma passagem do filme, por exemplo, a tia de Temple diz que já é hora de dormir, pois na fazenda todos acordam com o galo, e isso levou Temple a imaginar todos no telhado acordando com um galo.


Pode ser vista também a grande capacidade cognitiva para a inteligência espacial e memória fotográfica que Temple possui; no filme ela afirma que pensa com imagens e que as conecta (o que pode ser observado em vários momentos do filme). Temple consegue fazer cálculos só de olhar, desenvolveu a “máquina de abraço” (baseando-se em uma máquina usada com o gado), reproduziu um experimento na faculdade e se colocou no lugar do gado para entender o que os faziam mugir tão alto.
Bandim (2013) afirma que muitas pessoas compartilham a ideia de que o autismo torna o portador inteligente, mas isso é feito de forma inadequada visto que não há autismo de alto funcionamento, o que existe são pessoas com alto funcionamento cognitivo portadoras de autismo, ou seja, alguns autistas possuem a inteligência preservada. Já outros podem possuir grande potencial em habilidades específicas e deficiência em outras áreas, esse é o caso da Temple que reproduz todo o conteúdo de uma página olhando só uma vez, mas ao mesmo tempo não consegue entender o que tais palavras querem dizer.
Quanto mais rápido o diagnóstico for realizado, melhor para o paciente. O ambiente destinado às crianças que possuem autismo deve ser otimizado, levando em consideração todas suas dificuldades sensoriais, motoras e verbais. 
Não concordando com o que foi dito pelos médicos, a mãe de Temple sempre buscou formas de socializar sua filha que variavam desde práticas de exercícios linguísticos em casa, colocando-a posteriormente na escola, até trabalhos prestados na fazenda da sua tia no período das férias. Temple foi para a faculdade e concluiu seu PhD em engenharia agropecuária, revolucionando a forma de manejo com o gado e quebrando alguns estereótipos da época. Temple diz que a família sempre a tratou como diferente, mas nunca como inferior.

Título Original: Temple Grandin
Direção: Mick Jackson
Ano: 2010
Duração: 107 minutos
Origem: Estados Unidos

Referências:
BANDIM, J. M. Autismo: Uma abordagem prática. Recife: Bagaço, 2011.

GADIA, C. A.; TUCHMAN, R.; ROTTA, N. T. Autismo e doenças invasivas de desenvolvimento. Jornal de Pediatria, v.80, n.2, p.83-94, 2004. 

BARSTAD, M. G. Do Berço ao Túmulo: A Teoria do Apego de John Bowlby e os estudos de apego em adultos, 2013. Disponível em: <http://www.institutoentrelacos.com/Teoria%20do%20apego%20-%20Mariana%20Bastard.pdf> Acessado em: 2013.

9 de dezembro de 2013

A visão da Síndrome de Asperger pelo filme "Adam"

      Adam” é um filme de 2009 que retrata a história de um portador da Síndrome de Asperger, (interpretado por Hugh Dancy) que acaba de perder o pai. Paralelamente, ele começa a desenvolver um relacionamento com sua vizinha, Beth (Rose Byrne) e junto com ela, nós os espectadores também aprendemos um pouco mais sobre a síndrome.


                         
O filme trata o Asperger de forma até bem didática, pois o próprio Adam tem consciência de que possui a Síndrome, e explica em diversos momentos do filme como a sua percepção do mundo é diferente das outras pessoas. De acordo com Nicolau, a Síndrome de Asperger faz parte do espectro autista e é caracterizada por déficits de interação social e padrões de comportamento restritos e estereotipados, porém não há atrasos significativos na linguagem e no desenvolvimento cognitivo dos portadores.     
         No entanto, mesmo não apresentando deficiências estruturais na linguagem, as pessoas com Asperger podem por vezes ter uma compreensão verbal muito concreta, ou seja, elas demonstram dificuldades nos significados literais e implícitos, na prosódia (ou seja, a entonação), na manutenção de diálogos, no entendimento de trocadilhos, entre outros. As dificuldades dessas pessoas estão relacionadas, segundo Roballo (2001), a linguagem que se denomina pragmática e social, como pode ser visto em alguns diálogos no filme “Adam”:

Beth: “Como vai a procura por trabalho?”
Adam: “Muitos já foram ocupados. Ainda estou recebendo respostas”
Beth: "Tenho certeza de que vai achar o emprego certo”
Adam: “Como pode ter certeza disso”?
Beth: “Quer dizer, espero que ache o emprego certo”.
--------------
Adam (em uma festa): “Comprar um telescópio é uma decisão complicada. Deve focar em seus interesses”
Mulher: “Sem trocadilhos”
Adam: “O quê”?
Mulher: “Foco”?
Adam: “Ah, certo”.

“As pessoas com Síndrome de Asperger geralmente têm elevadas habilidades cognitivas - pelo menos Q.I. normal, às vezes indo até às faixas mais altas (TEIXEIRA, p.02). No entanto, mesmo com boas condições intelectuais, é possível perceber uma grande dificuldade em interpretar e aprender as capacidades da interação social e emocional com os outros. Também há dificuldade em atribuir estados intencionais e predizer o comportamento das pessoas.
       Uma das teorias da psicologia que se preocupa com a explicação desses fenômenos é a teoria da mente. Esta teoria observa que as pessoas possuem uma capacidade de inferir sobre os próprios estados mentais e os das outras pessoas. No caso do autismo, ocorre um déficit nessa capacidade, e de acordo com estudos citados por Almeida (2010), utilizando neuroimagem funcional, o córtex frontal parece estar relacionado a esta habilidade. Outros estudos também apontam a participação de neurônios-espelho nesse funcionamento cognitivo, pois eles permitem “não apenas a compreensão direta das ações dos outros, mas também das suas intenções, o significado social de seu comportamento e das suas emoções” (LAMEIRA, GAWRYSZEWSK E JUNIOR, 2006).
Por causa desse déficit, pode-se perceber nos autistas certa falta de capacidade de “atribuir estados mentais — desejos, crenças, emoções, intenções, sentimentos, atitudes, pontos de vista — a outros e a si mesmos, e de perceber e predizer comportamentos relativamente a esses mesmos estados” (PACHECO, 2012). 
Adam comenta durante o filme que possui “cegueira mental” desde criança e por isso não consegue entender o ponto de vista e os sentimentos das outras pessoas. Quando ficou mais velho, teve que aprender a perguntar o que os outros estão pensando para melhor compreendê-los.
De acordo com Furtado (2009), é possível aprender a interpretar expressões não-verbais, emoções e interações sociais pelas pessoas que possuem a Síndrome de Asperger e isso melhora suas interações sociais e aproximações com os outros. Em uma das primeiras cenas do filme, Beth passa por Adam carregando um carrinho de compras pesado e nota-se a falta de capacidade de Adam de perceber que ela estava precisando de ajuda. Isso é superado ao longo do filme, quando em uma das últimas cenas, ele ajuda uma mulher a carregar suas coisas, sem que ela pedisse seu auxílio.
Uma das características da Síndrome de Asperger de acordo com Teixeira é:

A sua peculiar idiossincrática área de “interesse especial”. Quando as crianças entram para a escola, ou mesmo antes, elas mostrarão interesse obsessivo numa determinada área como a matemática, aspectos de ciência, leitura (alguns têm histórico de hipelexia – leitura rotineira em idade precoce) ou algum aspecto de história ou geografia, querendo aprender tudo quanto for possível sobre o objecto e tendendo a insistir nisso em conversas e jogos livres (p.06).

Adam tem um particular interesse em temáticas relativas ao espaço, sendo este um dos assuntos mais falados por ele durante o filme. Ele tem inclusive uma roupa de astronauta e um planetário dentro de sua casa, além de muito conhecimento sobre o tema, o que o leva a trabalhar em um observatório.
                                  


            De acordo com estudos, se comparados a outras formas de autismo, as crianças com o Asperger são mais aptas a crescer e serem mais independentes quanto a família, casamento, emprego, entre outros. “Os adultos tornam-se muito talentosos em suas áreas de interesse, e podem assim até ocupá-los na área de sua profissão” (FURTADO, 2009, p.34).


Trailer do filme:




Título Original: Adam
Direção: Max Myer
Ano: 2009
Duração: 99 minutos
Origem: Estados Unidos


REFERÊNCIAS

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